Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de abril de 2017

manhã cinza

Eu ando pelas ruas e vejo pessoas de coração partido, pessoas boas, que sentem a dor, que sentiram tudo, sentiram demais e de repente, já imploram para não sentir mais nada, vejo pessoas que já não querem acreditar em nada.

Não conheço, nem pretendo conhecer, cada história, cada pessoa envolvida, cada palavra dita, cada resposta encontrada, cada dúvida ou certeza, isso tudo é muito próprio de cada um, é doloroso de ver.

O triste é que a paisagem dolorosa é  cada vez mais comum, todas as manhãs vêm amanhecendo tonalizadas de cinza, praticamente sem sol, sem sinal de chuva, sem sinal de melhora.  É uma manhã fria pra quem até pouco atrás estava no calor de bons momentos.

É uma manhã fria onde cada pessoa pega seu próprio moletom e sai de casa, com todos os sentimentos trancados dentro de si, onde uma ferida arde um pouco mais no processo de cicatrização e o cansaço da rotina se mostra presente logo que o pé  (esquerdo) é posto do lado de fora da porta.

É a manhã fria onde quase ninguém encontra a lojinha com um cappuccino quente, onde quase ninguém tem vontade para encontrar o conforto, porque é difícil acreditar na melhora, é difícil confiar no abraço outra vez. E se a neblina passa para alguns, os dias demoraram para voltar ao normal, sabe-se que o que tem que acontecer vai acontecer de qualquer forma e que é nessa lojinha que parece indiferente que as pessoas boas ficam dispostas a ajudar outras, o princípio é empatia.

domingo, 19 de junho de 2016

{Conto} Nossa Culpa

“Eu amo isso, um lugar onde desde a primeira vez que entrei pude ver o encanto. Cidade pouco desenvolvida, trabalho voluntário, confesso que vim pra cá para fugir, mas agora posso ver que foi a melhor escapatória que poderia ter encontrado.
 
Após uma confusão política o lugar ficou destruído, pessoas traumatizadas e perdidas, então onde todos esperavam ver tristeza, caos e mais confusão, viram o altruísmo, mesmo possuindo pouco, um ajudava o outro. Quando uma sociedade começou a ser construída com a chegada de escolas e pequenos empregos, as pessoas continuaram se ajudando, torcendo um pelo outro, como uma família grande demais, como uma família que surgiu do nada.

Foi por essa história que resolvi vir até, para “pelo menos conhecer”, então decidi. Era pra esse lugar que eu queria dedicar meu tempo, falar sobre tudo que eu sei, que aprendi no que chamam de “Países Grandes”. Então comecei auxiliando os governantes, depois, indo às escolas que tinham menos que o necessário e falando sobre histórias mágicas, números, sobre o poder das palavras e sobre como a história daquela cidade era maravilhosa, sobre a capacidade desse lugar de ser gigante, mas não exatamente na extensão territorial, mas na genuinidade de um povo acolhedor, sorridente e gentil, na esperança que brilhava em seus olhos, nas coisas boas que poderiam fazer.

Após alguns dias, eu conheci o lugar onde me encontrei, onde me senti completa. O lugar onde as pessoas enviam e recebem cartas, os correios. Talvez tenha sido o aroma do papel, ou da tinta, talvez aquela organização quase que impecável, talvez a simplicidade, talvez os sorrisos. Mas, somente no fim da primeira semana lá que eu realmente soube que o que me encantava não eram apenas as coisas que o lugar tinha, mas os sentimentos que as pessoas demonstravam pelo lugar. 

As conexões com outros lugares começaram e ainda feitas por cartas, primeiramente só entre autoridades, mas depois, pouco a pouco, para pessoas. Então ali eu via a esperança, a saudade, o desespero por notícias daqueles que foram pra outros lugares...
Principalmente, o amor, eu ainda sorrio quando penso em histórias de casais apaixonados, daquelas bem melosas, mas que de coisinha em coisinha, vai mostrando um amor lindo, recíproco. E sorrio também quando me contam de uma amizade anos, de amigos que acabaram separados, mas algo de muito lindo, impediu a separação total, a desconexão.”

Ler isso agora dói muito, dói saber que o que eu escrevi naquele pequeno caderno de anotações deixou de ser real, que após usarem crenças para profetizar a dor, sofrimento e desigualdade, tudo foi acabando, e no lugar do brilho eu via ódio nos olhos das pessoas. É cruel, mas é a verdade, daqui algum tempo não restará nada e nós seremos os únicos culpados.